Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007
Feliz Natal.
Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007
O sermão de Santo António aos peixes na actualidade.
Data de há mais de trezentos e cinquenta anos o Sermão de Santo António aos Peixes, da autoria do padre António Vieira, missionário português no Brasil, mas continua, a meu ver, bastante actual.
Vieira dizia que os homens não ouviam os pregadores, e viviam sem qualquer regra moral. Vemos hoje que, com pregadores ou sem pregadores, salgando bem a terra ou deixando-a insossa, os males continuam visíveis, tal como há mais de três séculos. Alguns males são, até, os mesmos, outros mudaram… Mas a sua origem é comum: a (in)capacidade humana de pensar mais nos outros, e menos no seu ego e na sua pessoa.
No tempo do missionário, a arrogância, a soberba, a ambição de mandar numa terra sem rei presente, a traição e a hipocrisia dos religiosos, eram alvos maiores do discurso incisivo do sacerdote, e hoje em dia podemos confirmar que muitos dos defeitos dos peixes, ou homens, continuam bem patentes.
Temos a arrogância e a soberba dos que enriqueceram e constituíram as suas SA’s com os “amigos”, e controlam a alta finança como bem querem e lhes apetece, pedindo ao povinho que compre acções sem saberem, a grande maioria, muito bem para que serve aquilo, e que se comportam nas assembleias gerais de accionistas como se fossem donos do mundo quando são, na maioria das vezes, donos de não mais de uma mera percentagem de uma empresa que, caso a legislação seja levada à risca, é levada à falência se, revoltando-se o povo contra ela, vir os seus produtos boicotados. Ou os que, chegando a um posto mais alto na vida, como, por exemplo, alguns políticos, esquecem as origens, e que, em tempos, também fizeram parte da sociedade anónima.
A ambição de mandar sem rei presente, ou seja, os homens “comerem-se uns aos outros e os maiores aos mais pequenos”, como dizia António Vieira, pode ser aplicada no nosso quotidiano a tantas situações que é complicado escolher. As cunhas que tão bem funcionam em Portugal e servem para passar à frente do próximo, desde uma obtenção de um emprego num certo local de trabalho, até aos subornos (ou pelo menos suspeitas, em muitos casos, disso) para se passar por cima de leis ambientais de forma a instaurar imóveis, ou mesmo às compras de concursos públicos… tudo é bastante similar à crítica de Vieira aos ambiciosos, que não olhavam a meios para subir na vida no Brasil colonial.
A traição também é um mal que todos reconhecemos hoje
Quanto à hipocrisia dos religiosos, é mais um assunto bem observável. Todos nós conhecemos como funciona a esmagadora maioria dos eclesiásticos, que querem ajudar os pobrezinhos e acabam por viver vidas desafogadas com o dinheiro dos paroquianos, em muitos casos. Além da quantidade de ensinamentos ministrados que nem eles cumprem, muitas vezes
Estes são os “pecados” dos “peixes” que a meu ver continuam actuais, mas nem só aqui o sermão continua a ser contemporâneo. Vejamos que Vieira disse que não era só a terra que não se deixava salgar, mas também havia sal que não salgava bem. Dei exemplos do primeiro caso, vou agora dar alguns exemplos actuais de mensagens que chegam ao ouvinte distorcidas, ou seja, de “sal que não tempera”.
Começo por um exemplo dentro da Igreja. Uma mensagem errada, na actualidade, é a veiculada pelos altos membros da Igreja Católica contra o uso do preservativo. Parece-me, de todo, uma mensagem desadequada à realidade, e António Vieira provavelmente diria que é “sal que não salga”.
Hoje em dia, contudo, os pregadores já não são muito ouvidos na sociedade, pregando. Hoje quem “prega”, na mais parecida acepção da palavra, são os políticos. E aí se encontram novamente exemplos de “pregadores que não pregam a verdadeira doutrina”, agindo os cidadãos como os homens de poder. Acabam todos agindo incorrectamente. Mas a culpa é, em considerável medida, de quem não cumpre a missão de “pregar”…
O sermão continua assim, a meu ver, tão actual hoje como quando foi pela primeira vez dito. Parafraseando, em jeito de conclusão, o sacerdote… “Ainda mal!”.
Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007
Filosofando...
Assim, nunca idolatrei cegamente ninguém. Há personagens que admiro bastante, mas não o suficiente para conseguir defender num exercício argumentativo deste género. Assim, para conseguir realizar um exercício argumentativo capaz, não poderei utilizar apenas uma personagem. Prefiro criar uma personagem primeiro, e argumentar a favor dessa minha personagem de seguida…
A “pessoa” que eu defenderei será um misto de Floribella, Ricardo Araújo Pereira e Chuck Norris.
Passo a explicar: o senhor (ou senhora?) Floricachu seria uma pessoa com um sentido de Humanidade bastante grande, defensora dos pobres e oprimidos, dos que nada têm e nunca ficam com nada, dos que apenas querem um espaço no Mundo para viver, calmos e felizes, sem os ricos e poderosos a empatar. Como dizia Garrett, através de um diferente vocabulário, por cada boa ventura de um rico, há milhões de pobres a sofrer. Esta era a costela de Floribella.
A costela de Ricardo Araújo Pereira permitiria a essa pessoa ridicularizar os ricos e fazer rejubilar os pobres. Ou seja, transmitiria verbalmente o pensamento e as atitudes tomadas pela costela floribellesca. É sempre importante em alguém verbalizar os seus sentimentos. A verbalização, tímida ou irreverente, cuidada ou em calão, é sempre, em todo e qualquer caso, preferível à interiorização de um pensamento. Por estes motivos, a minha figura predilecta teria que ter obviamente uma porção do melhor rabulista português, que por sinal é também um belíssimo pensador por trás da máscara de comediante.
Mas muitas vezes, não chega tomar atitudes e pensar em tornar o Mundo mais feliz… e mesmo falando, a nossa voz não é ouvida. Quando a palavra verbalizada não é ouvida e tida em conta, de forma a modificar a situação precária dos que nada chegam a ter, entram em cena as armas! Punhos, facas, catanas, Kalashnikovs. Há que lutar pelo que se acredita, sempre, apesar de a luta armada dever ser um último recurso. Mas… quantas vezes sabemos nós que pensamos com razão, acreditamos em ideais sobre os quais temos razão, e no fim de contas, ninguém com um pingo de poder toma em linha de conta o que queremos ou deixamos de querer? Há que ter coragem para enfrentar o poder estabelecido, com armas se for caso disso! Como o grande Chuck Norris, que dava pancada em tudo quanto mexia nos filmes.
Penso que uma personagem que conjugasse estas três virtudes, seria perfeita. E no meu entender, houve uma que quase personificou a fantasiada (ou o fantasiado!) Floricachu. O seu nome é Ernesto Guevara de la Serna… Ou simplesmente… Che!
Sempre teve, ao longo da sua vida, actos e pensamentos a favor dos pobres da Argentina, e mais tarde da América Latina. Gratuitamente usava os seus conhecimentos de medicina, e monetariamente ajudava os pobres a ultrapassar a sua situação. Não é inequivocamente conhecido se era um rei do humor ou não, mas os seus pares diziam que em privado era um grande companheiro de riso.
Apesar de não ser humorista reconhecido, sem dúvida verbalizava bastante bem aquilo que pensava, e disso são exemplo as suas inúmeras frases com um toque apenas… fantástico! "Los poderosos pueden matar una, dos hasta trés rosas, pero jamás podrán detener la Primavera!", ou em português: “Os poderosos podem matar uma, duas, ou até três rosas, mas nunca conseguirão deter a Primavera!”. “Ser capaz de sentir indignação contra qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, é a qualidade mais bela de um militante.” “Não nego a necessidade objectiva de estímulo material, mas sou contrário a utilizá-lo como alavanca impulsora fundamental, porque então, ela acaba por impor a sua própria força às relações entre os homens.” Três exemplos entre dezenas e dezenas deles.
E sem ser ouvido, passou das palavras aos actos. Refiro-me, obviamente às guerrilhas sul-americanas, que conseguiram, com ele ou com a sua influência psicológica mais tarde, derrubar governos corruptos e de direita imperialista e fantoche, sob influência americana, que calavam os camponeses, os artesãos, os que nem camponeses ou artesãos conseguiam ser. Os que tinham visto os seus campos roubados para as multinacionais. Os que tinham visto a sua comida racionada para alimentar os turistas ricos. Os que sentiam na pele sob a forma de tortura, física e psicológica, o castigo por pensarem diferente. E pode dizer-se que teve um grande sucesso…
Porque é que não é então, uma personagem perfeita, e utilizei tantos artifícios ao longo do meu trabalho? Porque também ele cedeu à tentação de tocar uma bateria com demasiados pratos e tambores. As guerras africanas não eram para ele, e ele não percebeu que África era bem diferente da sua terra natal. Esse foi, para mim, o seu maior erro… E como podem ver, até uma personagem aparentemente com poucos defeitos errou de forma clara!
Poderia apontar outro defeito. Partiu demasiado cedo do solo do nosso planeta. Mas isso… foi culpa dos Americanos!
Como de costume.
A actualidade de Garret.
Almeida Garret, há mais de 150 anos.
E continua tão... actual!